críticas
Los Angeles Times - Kenneth Turan
Quando a obra-prima A TURMA, de Laurent Cantet, ganhou a Palma de Ouro em Cannes, o público irrompeu em aplausos entusiásticos, que só aumentaram quando os 24 alunos se juntaram ao realizador em palco. A TURMA consegue tocar um conjunto surpreendente de questões pessoais e sociais ao focar um ano de uma turma de alunos num dos bairros mais pobres de Paris. Baseado num livro do professor François Bégaudeau, o impacto emocional do filme é especialmente poderoso.
The New York Times - A.O.Scott e Manohla Dargis
A passadeira vermelha foi invadida por adolescentes quando o filme A TURMA ganhou a Palma de Ouro. Realizado por Laurent Cantet, este filme entre a ficção e o documentário, segue um ano na vida de um professor que trabalha numa escola multicultural bastante difícil de Paris. Baseado no “best-seller” livro autobiográfico de François Bégaudeau, que interpreta o protaginista, A TURMA destaca-se pelas interpretações dos actores não-profissionais que dão corpo aos alunos. Cantet chamou-os ao palco para aceitar o prémio, e eles fizeram com que a sala em peso se levantasse a aplaudi-los de pé.
Screen International - Mike Goodridge
A obra de Cantet é marcada por mais uma viragem com este docudrama absorvente sobre as relações entre um professor e os seus alunos numa escola de Paris durante um ano. O filme foca as preocupações e dinâmicas da turma, mas, mesmo decorrendo entre quatro paredes, oferece um microcosmos da multietnicidade da população francesa actual e uma visão fascinante dos dilemas complexos e das faltas de comunicação que o ensino e a aprendizagem colocam. Vai certamente provocar discussões sobre os desafios da educação de alunos oriundos de bairros pobres de imigrantes. E ilustra definitivamente que o ensino é na sociedade actual uma das mais duras profissões.
Variety - Justin Chang
A TURMA marca o regresso de Laurent Cantet às dinâmicas de observação social acutilante que o distinguiram com o seu filme “Recursos Humanos”. A turma é apresentada como sendo um microcosmos de diferenças culturais, intelectuais e de aspirações. Levanta várias questões sobre os parâmetros da educação e da disciplina comuns às escolas urbanas em ambos os lados do Atlântico. Um dos filmes mais consequentes e divertidos do festival.
Time Out - Geoff Andrew
Foi uma extraordinária surpresa na competição de Cannes 2008, vinda do realizador Laurent Cantet que em 2001 assinara a obra-prima “O Emprego do Tempo”. No final, numa alusão à República de Platão, o realizador levanta o véu sobre as suas intenções: não há respostas fáceis para as várias questões sobre a educação, a escola e a sociedade que o filme coloca de forma admiravelmente lúcida, subtil e provocadora. E os miúdos são extraordinários.
Libération
Poderoso e hipnótico. É emocionante ver a que ponto o filme não descreve ao fim e ao cabo um estado de crise, a disfunção, mesmo havendo derrapagens, falhanços, mas sim uma instituição em marcha. Como esta instituição, Cantet leva o projecto à letra: mostra os ajustamentos perpétuos, os grãos de areia que perturbam a bela articulação entre as virtudes teóricas e as situações concretas. (…) A TURMA cativa pela sua energia física e a prova feliz de um pensamento em acção.
Les Inrockuptibles
Para além de ser um filme “sobre” a escola, a educação, a juventude, a mestiçagem, a integração, a autoridade, a transmissão, A TURMA é um inteligente e sensível espectáculo cinematográfico, bem escrito, com óptimos diálogos (por François Bégaudeau, adaptando o seu livro, baseado na sua experiência de professor), extraordinariamente interpretado (também por Bégaudeau e por um conjunto de professores e alunos que nos tocam pelo seu à vontade, pela sua presença, cinestesia, a sua diversidade de personalidades e tonalidades), um filme cuja realização é de tal forma depurada e densa que cada cena é coerente e importante na globalidade do conjunto. (…) A escola de A TURMA funciona perfeitamente como alegoria da sociedade francesa, espaço onde se jogam todas as questões que aquecem o país.
Le Monde
Excepcional. Consegue ser sério, subtil, incisivo, perturbador e cómico. A sua recompensa é indiscutível. O seu impacto ultrapassa largamente as fronteiras francesas. (…) História de um ano escolar, condensado em duas horas e por isso reduzido aos seus momentos de tensão, de crises, de acontecimentos significativos. História de um pedagogo adulto, optimista, confrontado com a juventude, o imprevisto, a intolerância, a ingratidão, as dificuldades de comunicação, os fossos dialécticos, o choque de culturas, as armadilhas, os riscos da profissão, a solidão. (…) A magia do filme está na destreza com que Cantet capta esta vida fervilhante entre quatro paredes, este blá blá permanente, a vergonha de uns e a conversa dos outros, as eternas palavras, debates agitados, protestos contra um professore demasiado enervado, irrupção brutal da emoção… (…) Fundado na maiêutica, este filme presta homenagem a este professor capaz de conduzir os alunos a descodificar o saber, falando com eles como se fossem adultos.
Télérama
Um confronto constante, democrático, entre um professor e os seus vinte e quatro alunos – melhores ou piores, mais ou menos indisciplinados, mas todos sem excepção com um papel importante neste mosaico humano. (…) A energia é a palavra-chave. Energia transbordante de uma juventude muito pouco “gaulesa”, multicultural, plural, que raramente foi filmada de forma tão positiva. (…) Não esperemos a verdade definitiva sobre a escola. Nem estados alarmistas, nem professores com um optimismo beato, o filme consegue mostrar este lugar como o espaço de um formidável jogo social. Um jogo de poder, de representação, de dissimulação, de estratégias várias, em que cada um tenta, melhor ou pior, distinguir-se. Não é por acaso que o filme termina com um jogo de futebol, espécie de prolongamento dos jogos a que assistíramos. Um empate a zeros, mas com um belíssimo jogo.
Cahiers du Cinéma
Um projecto de uma extrema coerência. A escola é o tema dos temas. É o lugar público por excelência, o primeiro que encontramos na vida. (…) Numa dialéctica permanente, ora alegre, ora trágica, Cantet desenha
o retrato cruzado de um professor pela sua escola e da sua escola por um professor: o esboço concreto de um universo escolar que vai da amortização do custo da máquina de café até às estratégias para travar o insucesso escolar. No fim do ano, a escola de Cantet aparece sobretudo como um lugar político. Um grande labirinto onde um poder se exerce das mais variadas formas: o voto, a assembleia, o comité. Não é tanto uma verdade sobre a instituição mas sim um contra-campo dirigido aos espectadores. E estará provavelmente aí o sucesso do filme: o desejo dos espectadores de participar nos jogos de poder que se desenham no ecrã, de participarem nas utopias efémeras que aí florescem.
Première
Imenso. Sobre o imperfeito do conjuntivo, a questão do auto-retrato, o futebol, a ideia da vergonha, a definição da insolência, a diferença entre a oralidade e a escrita ou a escolha de um nome escrito no quadro. Os diálogos são brilhantes, os alunos de uma vivacidade encorajadora e o professor domina a língua com uma ironia mordaz e uma certeza que às vezes o faz derrapar. Retrato de uma humanidade plural e imperfeita, estado dos lugares de uma democracia a tratar com cuidado, A TURMA é um filme conseguido, denso, que questiona o mundo.
Positif
A TURMA desenha o retrato sensível e generoso de uma geração e mostra uma escola que sabe ser moderna, segura dos seus valores e da sua força.
Público – Vasco Câmara
É um toque de classe cinematográfica no final da competição da 61ª edição de Cannes: A TURMA, de Laurent Cantet. São cenas de luta na classe de uma escola parisiense, num filme que lança os dados de forma desassombrada (afinal, é um dos “temas do dia” a sala de aula) e original. Baseado no livro de François Bégaudeau, antigo futebolista tornado professor que escreveu sobre a sua experiência dentro da sala, isto é, entre les murs, o filme foi trabalhado com verdadeiros alunos e professores, desafiados, durante um processo de ateliers no ano lectivo que precedeu a rodagem, a improvisarem a partir das personagens do livro - o próprio autor veio a ser o intérprete principal do filme, é o professor, alguém que, tal como acontece com os outros intérpretes, está suficientemente perto e suficientemente longe de si próprio. Cantet (o realizador dos magníficos “Recursos Humanos” e “O Emprego do Tempo” -e do menos necessário “Vers le Sud”) explicava ontem em conferência de imprensa, que sempre quis fazer um filme sobre a escola, “o lugar onde se produz ideologia, onde se forma aquilo que vamos ser”. Mas tinha consciência da dificuldade, quase intransponível, em fazer-se passar por um rato pesquisador que ali entrasse, invisível, para descodificar os laços que se estabelecem. O livro surgiu-lhe como testemunho de quem falava com autoridade porque falava de dentro daquelas paredes. E, sobretudo, escrito por alguém que não alinhava pela definição de escola como “santuário” -se a sociedade não é perfeita a escola também não o é. [...] Aqui a classe não é um espaço de depuração de desigualdades, é, mas sem paternalismo, uma câmara de eco, um espaço -íamos escrever, e vamos escrever, “natural” -para o conflito. Por causa do sexo e da raça, por causa de desigualdades, da exclusão. E por causa da linguagem e da dificuldade em dominá-la. [...] O conflito em A TURMA é uma luta de palavras e por causa das palavras. Pormenor nada negligenciável: esse conflito é desencadeado por um deslize de um professor, alguém que estabelece uma relação directa,inteligente, desafiadora, com os seus alunos. É como se isso, o conflito, fosse inescapável entre aquelas paredes. Entre outras coisas, A TURMA foi o melhor filme francês no concurso.
Diário de Notícias – Eurico de Barros
Um miúdo marroquino chama "macaco" a outro do Mali. Uma rapariga tunisina recusa-se a ler um trecho de um livro porque não lhe apetece. Um filho de portugueses aparece com uma camisola da selecção de futebol e o cabelo espigado à Ronaldo. Estas são algumas das situações que o professor de A TURMA, de Laurent Cantet, tem que enfrentar todos os dias na aula de Francês que lecciona num liceu algures em Paris; mas não é por isso que o filme, terceiro e melhor do trio que a França apresenta na Selecção Oficial do Festival de Cannes, se resigna aos clichés sensacionais do subgénero "filme de escola problemática".
Cantet disse numa entrevista que "toda a gente produz discursos ideológicos sobre a escola, mas muito poucos a conhecem e vão ver como funciona". Por isso, pegou na ideia que tinha de fazer um filme de ficção sobre a vida num liceu "difícil" e propôs ao jornalista, escritor e professor Francois Bégaudeau a adaptação ao cinema do seu livro Entre les Murs, baseado nas suas experiências de ensino. Mais: além de ter convidado Bégaudeau a co-escrever o argumento com ele e com Robin Campillo, Cantet propôs-lhe ainda que interpretasse o papel principal, o de um professor chamado... François. Para transferir para a tela a autenticidade do livro, o realizador e o autor decidiram que os alunos seriam interpretados não por actores jovens recrutados em castings, mas pelos alunos de um liceu de Paris, que fizeram workshops dramáticos e foram encorajados a improvisar durante a rodagem, mantendo os seus nomes na fita, tal como os professores. O resultado é esta crónica de um ano lectivo numa sala de aula que é um microcosmo de milhares de outras em escolas "duras", não apenas em França mas também em qualquer país da Europa onde os filhos dos imigrantes africanos, asiáticos e também europeus vieram engrossar as fileiras escolares dos naturais. Onde dar aulas requer a um professor já não apenas a normal preparação pedagógica, como ainda paciência de santo, muita capacidade de encaixe e uma autoridade feita de parte de firmeza, parte de diplomacia, e o dia- a-dia é gasto a dar matéria e a tentar explicar aos alunos as regras básicas do respeito, da boa educação, do convívio social e do comportamento em público -especialmente numa sala de aula. Colado ao máximo à realidade, Laurent Cantet descreve o confronto diário intenso, exigente e ingrato entre um adulto e um grupo de adolescentes em que se transformou o ensino em muitas das escolas das sociedades contemporâneas, sem desabar ou no discurso catastrofista do apocalipse escolar, nem nas piedades ingénuas das pedagogias redentoras, sem crucificar ou endeusar os professores ou transformar os alunos em estereótipos ou carne para canhão do politicamente correcto. E sem esconder que ensinar pode por vezes parecer uma missão quase impossível, face a quem não quer, não consegue ou resiste, com insolência e hostilidade, a ser ensinado. Entre les Murs é um filme sobre cenas da luta na classe.